Crónica – Os efeitos da guerra na indústria automóvel da Europa

Targa 67

FEV 2022

Depois do Covid-19 e da crise dos semi-condutores, a indústria automóvel tem agora o confronto Rússia/Ucrânia pela frente. Que efeitos poderá ter esta guerra na produção e comércio de automóveis na Europa e nas marcas ocidentais?

Sanções económicas contra a Rússia e sanções económicas a partir da Rússia já estão a resultar no início daquilo que alguns estimam possa vir a ser uma das maiores crises energéticas de sempre. Mas não só.

Como em todos os setores da economia, a indústria automóvel também vai sofrer consequências desta instabilidade. Desde logo pela subida de preço de matérias primas exportadas da Rússia, como o aço, Alumínio e Magnésio.

Mais ainda, a globalização tem levado ao crescimento da presença de vários grupos automóveis no território Russo, expondo-os mais diretamente a esta crise.

São várias as marcas ocidentais e orientais que se têm estabelecido na Rússia nos últimos anos, por razões que são fáceis de compreender. O mercado local já valeu perto de três milhões de carros por ano, depois desceu mas em 2021 já tinha recuperado até aos 1,57 milhões.

Produção local de automóveis
A produção local estava numa rampa ascendente, antes da pandemia de 2020, tendo chegado perto das 1,8 milhões de automóveis produzidos na Rússia. Nos últimos dois anos, a indústria automóvel local foi afetada pela Covid-19, como em todo o lado e depois pela crise dos semi-condutores.

A produção de automóveis na Rússia não se destina apenas a consumo interno, há uma parte importante de exportações que expõe assim os construtores presentes no território a problemas suplementares.

A Autovaz é o primeiro construtor russo, detido em 67,61% pelo Group Renault

O principal construtor de automóveis da Rússia é a Autovaz, detido em 67,61% pelo “Group Renault”. Fabrica não só modelos da marca Lada, para o mercado local, mas também modelos Renault, Dacia e Nissan.

Estamos a falar de mais de 400 000 carros produzidos por ano, uma parte deles para exportação. A Autovaz domina o mercado local, produzindo o modelo mais vendido no país, o Lada Vesta, mas o Kia Rio é o terceiro mais vendido.

Em termos de vendas por marcas, em 2021 a Lada dominou a tabela dos mais vendidos, logo seguida pela Kia, Hyundai, Renault e Toyota.

“Group Renault” está exposto
O clima de incerteza gerado pela guerra, deixa o “Group Renault” duplamente exposto. Por um lado, é mais que provável que as consequências da atual situação tenham reflexo na quebra das vendas no mercado local.

Por outro lado, as sanções podem afetar as exportações dos modelos do “Group Renault” fabricados na Federação Russa. Tanto mais que há exemplos recentes dos efeitos que a guerra teve na indústria automóvel da Rússia.

A crise da Crimeia em 2014 levou a uma quebra de vendas no mercado interno para metade do volume que tinha antes, uma consequência que se deverá repetir, sem se conseguir estimar qual a extensão que poderá ter desta vez.

Outros construtores presentes
Há mais construtores estrangeiros presentes na Rússia, associados a empresas locais, com operações que vão da simples montagem de modelos importados em módulos, até à sua produção mais ou menos completa. São os casos da GM, Chevrolet, VW, Ford e BMW. No total, estão contabilizadas 11 marcas estrangeiras a operar no país.

De todos os grupos presentes na Rússia com produção local, certamente o “Group Renault” será o que vê a situação com maior preocupação. A sua entrada na administração da Autovaz remonta apenas a Outubro de 2016.

O sócio do “Group Renault” na Autovaz é a empresa pública russa Rostec

No inicio, entrou em conjunto com o seu parceiro da Aliança, a Nissan, mas os japoneses venderam a sua quota da Autovaz aos franceses em Setembro de 2017. Em 2018, a Autovaz deu lucro pela primeira vez em dez anos.

Falta referir que o sócio do Group Renault na Autovaz é a empresa pública russa Rostec, que detêm o restante do capital da empresa, num total de 32,39%, não se sabendo que efeitos poderá ter para os franceses um parceiro como este.

Conclusão
A instabilidade da guerra terá na indústria automóvel um impacte tal como terá em qualquer outra atividade económica. Mas existem particularidades que podem preocupar em particular alguns dos construtores ocidentais. As ligações do “Group Renault” com a Autovaz estarão certamente no topo da lista do grupo Francês.

Francisco Mota